quarta-feira, 27 de outubro de 2010

desintoxicação pt.II

Ainda em seu sono sem sonhos, vagava com olhos vazios sob o comando do sonambulismo. Encaminhou-se novamente ao banheiro, dessa vez, porém, não lhe foram necessários dedos e engasgos e tosses e torturas e desmanchos e sufocos, sua garganta atuou numa harmonia quase que indiferente com seus músculos da faringe. Após algumas contrações e dilatações, vomitou-te por completo. Talvez vomitar não seja o verbo correto se se considerar que não houve vestígios da ação - não houve sons, ânsias ou feridas na faringe, além de seu sabor que padeceria na língua após tal ato. Não, não vomitou-te. Cuspiu-te. Cuspiu-te num ato tão mesquinho e apático que não lembraria de tê-lo feito mesmo consciente. Vomitou-te, cuspiu-te no banheiro e retornou automaticamente para seu sono pesado e silencioso, sem sonhos. Era uma noite quente e silenciosa, sem brisa nem estrelas, típica do verão.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

desintoxicação

Galhos curvos arranhavam a janela deixando pedaços de sua casca ressecada sobre o vidro.Chovia. Gotas grossas se encarregavam de limpá-lo, produzindo murmúrios quando chocavam-se pesados e redondos sobre a superfície lisa da vidraça. O vento gemia enquanto passava sobre as árvores. Trovejava e relampiava quase que se seguindo uma melodia - cantavam versos em redondilha menor, provocavam uma cacofonia alucinante e ensurdecedora. Na verdade, ainda não havia reparado no céu aquela noite. Seu mundo tremia, balançavam-se o medo, rancor, a angústia, o desespero, a esperança, a desilusão, a dúvida, o terror, desmoronava-se. Enfiou o dedo na garganta.

Vomitou-te.

Engasgou-te.

Sufocou-se.

Tossiu, tentando eliminar-te a qualquer custo. Arranhava seu pescoço para não sentir-te dentro de si. Tossia desesperadamente versos em redondilha menor.

Seu mundo dissolvia-se , desmanchava-se. Provocava gemidos enquanto entrava e saia por seus poros, levando parte sua consigo.

Tossia agora para tentar respirar. Gostas de sangue personificavam seu esforço sobre a superfície do espelho, provocando murmúrios quando chocavam-se pesadas e redondas sobre o vidro.

Em desespero, engoliu seu mundo de volta. Engoliu os versos, engoliu os gemidos, os murmúrios. Engoliu o vômito.

Recolheu-se, nada tremia mais. Analisou o céu, formava uma noite sem estrelas típica do verão, quente e silenciosa.

Passado o surto, adormeceu, mas não sonhou. Dormiu um sono pesado e silencioso, típico do verão.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

sobre promesas

I'll never ever let you leave
corroem-me
arrastam-me
perfuram-me
sufocam-me
sufoco-as
sufoco-me
vomito-me
engasgo-me
desiludo-me



por favor me mostre como sair daqui