luke, eu sou seu pai

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

"'Em geral, é tão difícil e inusitado conservar o que é absurdo como reter o que é confuso e desordenado'. Ora, na maioria dos casos, faltam aos sonhos inteligibilidade e ordem. As composições que constituem os sonhos são desprovidas das qualidades que tornariam possível recordá-las, sendo esquecidas porque, por via de regra, desfazem-se em pedaços no momento seguinte."

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

desintoxicação pt.II

Ainda em seu sono sem sonhos, vagava com olhos vazios sob o comando do sonambulismo. Encaminhou-se novamente ao banheiro, dessa vez, porém, não lhe foram necessários dedos e engasgos e tosses e torturas e desmanchos e sufocos, sua garganta atuou numa harmonia quase que indiferente com seus músculos da faringe. Após algumas contrações e dilatações, vomitou-te por completo. Talvez vomitar não seja o verbo correto se se considerar que não houve vestígios da ação - não houve sons, ânsias ou feridas na faringe, além de seu sabor que padeceria na língua após tal ato. Não, não vomitou-te. Cuspiu-te. Cuspiu-te num ato tão mesquinho e apático que não lembraria de tê-lo feito mesmo consciente. Vomitou-te, cuspiu-te no banheiro e retornou automaticamente para seu sono pesado e silencioso, sem sonhos. Era uma noite quente e silenciosa, sem brisa nem estrelas, típica do verão.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

desintoxicação

Galhos curvos arranhavam a janela deixando pedaços de sua casca ressecada sobre o vidro.Chovia. Gotas grossas se encarregavam de limpá-lo, produzindo murmúrios quando chocavam-se pesados e redondos sobre a superfície lisa da vidraça. O vento gemia enquanto passava sobre as árvores. Trovejava e relampiava quase que se seguindo uma melodia - cantavam versos em redondilha menor, provocavam uma cacofonia alucinante e ensurdecedora. Na verdade, ainda não havia reparado no céu aquela noite. Seu mundo tremia, balançavam-se o medo, rancor, a angústia, o desespero, a esperança, a desilusão, a dúvida, o terror, desmoronava-se. Enfiou o dedo na garganta.

Vomitou-te.

Engasgou-te.

Sufocou-se.

Tossiu, tentando eliminar-te a qualquer custo. Arranhava seu pescoço para não sentir-te dentro de si. Tossia desesperadamente versos em redondilha menor.

Seu mundo dissolvia-se , desmanchava-se. Provocava gemidos enquanto entrava e saia por seus poros, levando parte sua consigo.

Tossia agora para tentar respirar. Gostas de sangue personificavam seu esforço sobre a superfície do espelho, provocando murmúrios quando chocavam-se pesadas e redondas sobre o vidro.

Em desespero, engoliu seu mundo de volta. Engoliu os versos, engoliu os gemidos, os murmúrios. Engoliu o vômito.

Recolheu-se, nada tremia mais. Analisou o céu, formava uma noite sem estrelas típica do verão, quente e silenciosa.

Passado o surto, adormeceu, mas não sonhou. Dormiu um sono pesado e silencioso, típico do verão.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

sobre promesas

I'll never ever let you leave
corroem-me
arrastam-me
perfuram-me
sufocam-me
sufoco-as
sufoco-me
vomito-me
engasgo-me
desiludo-me



por favor me mostre como sair daqui

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

definindo os problemas, sentimento de culpa e todas esses pontos hormonais

relacionados à puberdade e sinapses complexas e somados a prazos compridos mas curtos demais para se moldarem à boa vontade

assim como pessoas que procuram fagulhos para ficar cutucando e chorando e se lamentando e se cortando por idiotices e além disso

o infortúnio difuso de Murphy ionizado no ar respirado e mortes súbitas de pessoas que você falou no dia anterior e imaginou como seria o cotidiano:

cu



a ideia era fazer tudo caber num título só mas não coube né, aí eu fui e
mas leiam como se estivesse tudo num título só ok? 7bgs

cemitério

nunca soube como guardá-los. deixava-os com cores e cheiros amigos, ou esquecia-os em qualquer lugar. dizem que a indiferença a motivou a tomar a atitude de então ir ao seu jardim e penetrar a terra com a explosão sinestésica que carregava. enterrou-a o mais profundo que suas mãos aguentaram cavar e fez-se a cova. jaziam suas lágrimas, angústias, suspiros, sorrisos, enfim. jazia também, fora do solo, sua carcaça vazia e aliviada. podia, finalmente, dormir em paz.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

carcaça

ela queria que cavassem mais o buraco, queria ver onde terminaria. e ela caiu. caiu e então a enterraram, ela e seus sentimentos. enterrados no abismo.

sábado, 31 de julho de 2010

"Ela estava lá dentro sozinha, preparando o jantar, depois se sentou, comeu e tomou um chá. Acho que ela comeu uma salada e tomou uma sopa.
E a solidão.
A solidão como sobremesa."

sábado, 24 de julho de 2010

lista de coisas a fazer antes de morrer:
- encontrar meu lugar no mundo

quinta-feira, 22 de julho de 2010

ilusão

- Não me abandone - ela chorava descontroladamente enquanto o abraçava cada vez mais forte.
Em resposta, ele apenas beijou sua testa e a apertou com força contra seu peito. Ela podia sentir sua pulsação aumentando.
- Por favor, não vá embora - ela implorava não só com palavras, mas com seu olhar, preenchido pela agonia e pelo desespero, manifestados por suas lágrimas quentes que queimavam seu rosto enquanto escorriam. Sentia-se fraca, sabia que desmaiaria assim que o soltasse.
Ambas respirações estavam intensas, mal sentiam seus braços devido a força com que se pressionavam um contra o outro, numa tentativa incessante de virarem um só, tentativa que caracterizava um abraço.
- Eu sinto muito
- Não, por favor ..
Ela tentava apertá-lo ainda mais, como se fosse impedi-lo de partir. Seus esforços eram, porém, totalmente em vão.
- Me perdoe.
Sentia-o desaparecendo, sumindo, até que sua imagem se desfez totalmente. Não estava mais ali, nunca esteve.
Ela tinha alucinado de novo.





a forma com que esse post fail me lembra crepúsculo me da náuseas.