Galhos curvos arranhavam a janela deixando pedaços de sua casca ressecada sobre o vidro.Chovia. Gotas grossas se encarregavam de limpá-lo, produzindo murmúrios quando chocavam-se pesados e redondos sobre a superfície lisa da vidraça. O vento gemia enquanto passava sobre as árvores. Trovejava e relampiava quase que se seguindo uma melodia - cantavam versos em redondilha menor, provocavam uma cacofonia alucinante e ensurdecedora. Na verdade, ainda não havia reparado no céu aquela noite. Seu mundo tremia, balançavam-se o medo, rancor, a angústia, o desespero, a esperança, a desilusão, a dúvida, o terror, desmoronava-se. Enfiou o dedo na garganta.
Vomitou-te.
Engasgou-te.
Sufocou-se.
Tossiu, tentando eliminar-te a qualquer custo. Arranhava seu pescoço para não sentir-te dentro de si. Tossia desesperadamente versos em redondilha menor.
Seu mundo dissolvia-se , desmanchava-se. Provocava gemidos enquanto entrava e saia por seus poros, levando parte sua consigo.
Tossia agora para tentar respirar. Gostas de sangue personificavam seu esforço sobre a superfície do espelho, provocando murmúrios quando chocavam-se pesadas e redondas sobre o vidro.
Em desespero, engoliu seu mundo de volta. Engoliu os versos, engoliu os gemidos, os murmúrios. Engoliu o vômito.
Recolheu-se, nada tremia mais. Analisou o céu, formava uma noite sem estrelas típica do verão, quente e silenciosa.
Passado o surto, adormeceu, mas não sonhou. Dormiu um sono pesado e silencioso, típico do verão.
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