quinta-feira, 21 de outubro de 2010

desintoxicação

Galhos curvos arranhavam a janela deixando pedaços de sua casca ressecada sobre o vidro.Chovia. Gotas grossas se encarregavam de limpá-lo, produzindo murmúrios quando chocavam-se pesados e redondos sobre a superfície lisa da vidraça. O vento gemia enquanto passava sobre as árvores. Trovejava e relampiava quase que se seguindo uma melodia - cantavam versos em redondilha menor, provocavam uma cacofonia alucinante e ensurdecedora. Na verdade, ainda não havia reparado no céu aquela noite. Seu mundo tremia, balançavam-se o medo, rancor, a angústia, o desespero, a esperança, a desilusão, a dúvida, o terror, desmoronava-se. Enfiou o dedo na garganta.

Vomitou-te.

Engasgou-te.

Sufocou-se.

Tossiu, tentando eliminar-te a qualquer custo. Arranhava seu pescoço para não sentir-te dentro de si. Tossia desesperadamente versos em redondilha menor.

Seu mundo dissolvia-se , desmanchava-se. Provocava gemidos enquanto entrava e saia por seus poros, levando parte sua consigo.

Tossia agora para tentar respirar. Gostas de sangue personificavam seu esforço sobre a superfície do espelho, provocando murmúrios quando chocavam-se pesadas e redondas sobre o vidro.

Em desespero, engoliu seu mundo de volta. Engoliu os versos, engoliu os gemidos, os murmúrios. Engoliu o vômito.

Recolheu-se, nada tremia mais. Analisou o céu, formava uma noite sem estrelas típica do verão, quente e silenciosa.

Passado o surto, adormeceu, mas não sonhou. Dormiu um sono pesado e silencioso, típico do verão.

Nenhum comentário:

Postar um comentário